terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Se num guenta pra quê veio?

Aqueles que me conhecem bem sabem que sinto verdadeira paixão pelo carnaval de Pernambuco! E, sabendo que a modéstia não é exatamente uma qualidade pernambucana, que o digam os rios Capibaribe e Beberibe que se unem para formar o oceano, apenas se divertir não é o suficiente, faz-se necessário enaltecer os blocos, a alegria, a beleza, etc, etc, etc... Afinal, temos o maior bloco de rua do mundo (reconhecido pelo livro dos recordes).
               Porém, carnaval é carnaval e mais importante que o coração regionalista é a diversão, a alegria gratuita de fazer festa onde quer que esteja!  Pensando assim, decido eu, profunda desconhecedora do quesito samba no pé, sair numa escola de samba!  Mas sabe como é recifense, pagar pra sair no carnaval? De jeito, maneira, qualidade ou circunstância!  Tem que ser no zero oitocentos, na rua é que o negócio ferve!  Solução: alas coreografadas da comunidade! E lá fui eu!
               Logo no primeiro ensaio somos alertados sobre o compromisso de ir aos ensaios, de cantar o enredo, de fazer bem feito o que fomos ali para fazer e que nada mais é senão... Nos divertir, cantar, dançar, fazer transbordar a energia, a felicidade, que só o carnaval é capaz de materializar!  Nada mal!
               Só que existe um pequenino detalhe: o que para a maioria é apenas diversão, para muita gente é trabalho, trabalho muito sério!  Suor de quase um ano inteiro de muita gente boa da comunidade, que depende dos incentivos prestados às escolas para mais um ano!  Há também aqueles que nasceram e cresceram nas comunidades e que vêem nas escolas de samba uma representação da própria identidade, e que por isso mesmo entram na avenida (ainda nos ensaios) como se fosse aquele o seu grande momento, a hora mágica tão esperada de um ano inteiro!
               Digo que ainda não virei grande adepta deste estilo de carnaval, mas confesso que há uma vibração extraordinária a cada ensaio, uma emoção fascinante, contagiante, pela qual possuo grande admiração e respeito, razões que me fazem, ainda que debaixo de chuva, comparecer a todos os ensaios, repetir exaustivamente o enredo e a coreografia, manter a disciplina e a atenção a cada detalhe.
               E por tudo que acabei de relatar é que me causa profunda amargura quando percebo em alguns ensaios o total descomprometimento de alguns componentes na avenida, um claro desrespeito a uma cultura viva, que me faz lembrar até o nome de um famoso bloco das ladeiras de Olinda “Se num guenta, pra quê veio?”

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